A experiência da família de Cícero Justiniano

Agrobiodiversidade
Sítio Barra – Remanso – BA

O Sítio Barra faz parte da Fazenda Induema, e está localizado no município de Remanso, estado da Bahia, a 38 quilômetros da cidade. João Cícero Justiniano Souza, conhecido por Cícero da Barra, junto a sua esposa Francisca da Silva Souza, e seus três filhos Jailma, Jailson e Ailton moram lá desde que nasceram. Cícero é o presidente da Associação de Fundo de Pasto dos Pequenos Produtores do Sítio Barra e faz parte da diretoria do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Remanso.

Tudo começou em 1997, quando o Sindicato lhe convidou para participar do curso de Formação de Agricultores para a Convivência com o Semiárido, realizado pelo IRPAA, Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada. Passou quinze dias em Juazeiro, junto a uma turma de pessoas que representavam vários estados do Nordeste, e, como ele mesmo diz, aprendendo a conviver com o Semiárido. Cícero lembra que tudo era novidade. Havia aulas práticas e teóricas e troca de experiências.

Durante o curso, conheceu várias plantas apropriadas ao Semiárido, uma delas foi a leucena. Aprendeu a fazer o feno e o silo. Trouxe sementes e, assim que chegou, plantou defronte a sua casa para experimentar. Hoje são 50 pés de leucena plantados para garantir a produção do feno. Mas só corta durante a lua crescente para cheia. Cícero diz que a planta cresce mais rápido, e a madeira que corta fica forte e brota mais galhos. Pode dar para os animais a folhagem verde ou fenada. Já possui uma forrageira.

Antes os animais só se alimentavam com palma ou capim verde, não conhecia o processo de fenação e silagem. Depois do curso, Cícero e sua esposa Francisca mantêm um banco de proteínas com glicerídea, leucena, sabiá, maniçoba, mandioca, entre outras. É uma forma de garantir para os animais uma alimentação nutritiva. Guarda desde 2008 passado um silo de capim para usar num momento de necessidade.

O capim aproveita bem. 1 tarefa, que são 25 braças, equivalente a 3 mil e 25 metros quadrados, ele faz 3 cortes durante o ano. 2 cortes ele faz no inverno para fenar e durante a seca alimentar os animais, e 1 corte passa na forrageira e dá direto para os animais. Dessa forma aumenta a produtividade.

Cícero participou de uma visita de intercâmbio na Paraíba, nos municípios de Campina Grande e Lagoa Seca. Conheceu a experiência do banco de sementes, chamada pelos paraibanos Sementes da Paixão. Estas sementes foram guardadas pelos seus antepassados e hoje preservadas pela nova geração que reproduz e cuida com dedicação. É uma semente pura. Cícero comenta que seu pai selecionava e guardava as sementes para não perder a plantação nas primeiras chuvas no ano seguinte.

Dessa visita trouxe a semente de glicerídea. Atualmente tem 20 pés plantados. Cícero conta que os animais não gostam de comer ela verde, só fenada. Futuramente pensa fazer cerca viva com a glicerídea, pois é fácil nascer de semente. E diz que a madeira dela é certa e já cortou para fazer galinheiro. Lembra que o importante é cultivar plantas que convivem no Semiárido.

A área da caatinga de fundo de pasto é de 860 hectares. Desses, foi cercado 200 hectares para garantir a preservação em 2005, durante o desenvolvimento do projeto Arranjos Produtivos, uma parceria do SASOP e CODEVASF. Diz que sempre preservou a caatinga porque foi um ensinamento do seu pai, mas as roças sempre faziam queimadas para plantar. Participando das capacitações, Cícero compreendeu que o que a terra gera se deixa de alimento para ela. São mais de 30 espécies de plantas nativas.

Da área de caatinga, 40 hectares é particular, onde Cícero cria abelhas. A comunidade participou de formações ministradas pelo SASOP. Foram distribuídas 40 caixas de abelhas entre as famílias. A família de Cícero iniciou com 5 caixas, e atualmente tem 15. A estimativa anual é de 450 litros de mel, que é usado para consumo da família e para comercialização, que faz através da Cooperativa Agropecuária do Pólo de Remanso – COAPRE.

Comprou uma centrífuga para facilitar o trabalho e garantir a qualidade.
Seu Cícero também é pedreiro e constrói cisternas desde 1997. E foi nessas construções que, em 2001, no município de Casa Nova, conheceu o terreiro de raspa que é um calçadão feito de cimento e serve para secar a raspa da mandioca, fazer feno e secar sementes. Trouxe a idéia e com recursos próprios fez um em seu quintal. A Associação adquiriu uma máquina de raspa, e junto à comunidade passaram a aproveitar tudo da mandioca. A maniva e as folhas trituram em separado, e da raiz se faz a raspa. Cícero também aproveita o terreiro para escorrer a água da chuva para a cisterna de enxurrada, que fica bem próxima ao terreiro.

Outra experiência importante para sua família é o sistema integrado de produção, conhecido por Mandala. É uma experiência que a Comissão Pastoral da Terra – CPT de Juazeiro – lhe apresentou em 2005. Na verdade, foi um desafio que Cícero e sua esposa Francisca aceitaram experimentar.

Receberam as instruções, o material para a construção e as mudas de frutas e verduras. Francisca conta que tudo acontece a partir de um reservatório de água de forma arredondada, que tem a capacidade para 16 mil litros. As plantações dos canteiros e fruteiras são feitas ao redor desse reservatório.
Os patos e peixes são responsáveis pela oxigenação e adubação da água, que garante o desenvolvimento das plantas.

Em 2009 foram plantados na mandala, mais 50 mudas de caju. Francisca diz que o objetivo é ter florada para as abelhas, e futuramente comercializar a polpa e a castanha. Mas chama a atenção que a Mandala, em primeiro lugar, é para garantir a segurança alimentar da família, pois além das frutas e verduras se alimentam de ovos dos patos e carne do peixe.

Desde que Cícero e sua família começaram a trabalhar com a agrobiodiversidade, que é toda essa diversidade de experiências desenvolvidas no sistema produtivo, junto ao fundo de pasto, têm o resultado mais garantido e percebem a natureza mais alegre e agradecida. É o que dizem sentir quando andam ao meio da plantação e da caatinga.

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