Organização social e luta pela água

Acesso à Água
Vale do Salitre – Juazeiro – Bahia

Até a década de 1970 o rio Salitre corria o ano todo. Os agricultores do Salitre abasteciam a cidade de Juazeiro com verduras, legumes e frutas, plantados com pequena irrigação, muitas vezes totalmente artesanal, numa faixa a mais de 100 metros da margem do rio Salitre, respeitando a mata ciliar. O Vale do Salitre sempre se destacou pela fertilidade de seu solo.

Na década de 1980 chegaram os grandes produtores, inclusive japoneses, sobretudo no médio e alto salitre, apossaram-se das terras e implantaram grandes plantações irrigadas de melão, cebola e tomate, usando motores potentes que sugavam toda a água, interrompendo o fluxo do rio. Essa prática tornou o Salitre um rio intermitente e desestruturou toda a vida dos salitreiros tradicionais. Por outro lado, o tipo de agricultura especulativa contaminou a forma tradicional de cultura e os próprios salitreiros investiram na monocultura, acabando de vez com a forma tradicional de cultura e desmatando as margens do rio, favorecendo o assoreamento e a poluição com uso cada vez mais intensivo de agrotóxicos e adubos químicos.

O baixo e médio Salitre foram as áreas mais afetadas pela falta de água. A reação iniciou-se a partir das Comunidades Eclesiais de Base, as CEBs, que abordavam os problemas das comunidades locais. Na década de 1980 as discussões focaram o associativismo como instrumento de organização, superação dos problemas e busca de melhores condições de vida. A Associação Comunitária dos Lavradores do Recanto Santa Terezinha e Bebida (ASCLAREC) foi pioneira nesta busca. Fundada em 19 de fevereiro de 1987 tem como um de seus objetivos assegurar o abastecimento de água para a população e contribuir na busca de melhoria da qualidade de vida das famílias agricultoras. A iniciativa de fundar a ASCLAREC surgiu dos moradores da comunidade de Recanto, mas a Associação congrega, também, comunidades vizinhas. Entre as lideranças que iniciaram o trabalho destacam-se Leonice Rocha da Silva, Nival Gomes da Silva, Renilde, Bernardete, Jardilina, Edgar Ferreira e José Ribeiro, que prestaram assessoria, pois já faziam parte de outras associações

Uma das iniciativas da ASCLAREC foi a implantação da roça comunitária onde os associados podem ter seus plantios e também criar animais de pequeno porte. É uma das poucas áreas do Salitre onde ainda existe mata ciliar. Ali também se iniciou a experiência de cultivo de hortaliças em canteiros econômicos com água armazenada na cisterna de produção. A terra para a roça comunitária foi cedida por duas famílias das comunidades e que participam da Associação

A partir da ASCLAREC outras associações foram surgindo e, no final da década de 1990, foi formada a União das Associações do Vale do Salitre, a UAVS. As associações foram criando uma tradição de organização e luta que até hoje persiste, apesar de todos os problemas enfrentados. Isso é um ganho social significativo da população.

Com o fortalecimento da organização, partiu-se para uma luta mais ampla pela água. A solução encontrada foi a construção de barragens sucessivas que, através de bombeamento, levam água do rio São Francisco até o médio Salitre. Inverteu-se a natureza. O Salitre deixou de ser afluente do São Francisco e passou a importar água do mesmo.
 
Essa forma de garantir água para a produção tem causado, por um lado, abastecimento para que os agricultores continuem sua produção, por outro, a salinização mais acentuada da água e da terra.

Mesmo assim, a grande maioria dos agricultores do Salitre só planta no período das chuvas, pois os gastos para poderem usar a água das barragens sucessivas estão muito além das possibilidades econômicas. Aí, a necessidade de se buscar alternativas. Entre as quais está a intensificação da criação de caprinos e o uso racionalizado da água em plantios de subsistência nos períodos chuvosos ou com água acumulada nas cisternas de produção.

A água das barragens sucessivas serve para produção. Permanecia o impasse para a água de consumo humano. A água das barragens, com uma alta concentração de sal, não podia tornar-se potável. Mais uma vez, a ASCLAREC foi à luta e, em parceria com a Diocese de Juazeiro, como Unidade Executora Local, está implantando, ao longo do Vale do Salitre, o Programa Um Milhão de Cisternas, o P1MC, para o abastecimento humano. Já as cisternas de produção são voltadas para garantir segurança alimentar para as famílias mais prejudicadas com a intermitência do Rio Salitre. A agricultura orgânica na roça comunitária – com o apoio do técnico Anderson Fabiano Rocha da Silva – está se estendendo para a produção de verduras com água das cisternas de produção.

Além da luta pela água a ASCLAREC, em parceria com diversos órgãos, participa:
– nos procedimentos de manutenção (limpeza) do rio Salitre;
– na construção de sanitários;
– na melhoria habitacional – com fundo solidário;
– na organização de cursos de capacitação;
– nas gestões para melhorar a educação e a saúde – André Azevedo Rocha (estudante de pedagogia) e Minéia Clara dos Santos (Agente de saúde) mobilizam os moradores para esta busca;
– na administração do uso da água do rio Salitre no trecho das barragens sucessivas;
– no Comitê da Bacia do Rio Salitre.

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