Visitas valorizam troca de experiências

No terceiro dia (24) do VII EnconASA as caravanas se deslocaram para comunidades interioranas de Juazeiro em busca de conhecer e trocar experiências com agricultores e agricultoras do Estado. As 14 visitas giraram em torno dos sete temas que estão sendo discutidos no evento. Saiba como foram algumas dessas visitas:

Segurança alimentar

Vinte e quatro participantes viajaram 130 quilômetros para conhecer a experiência de Edésio Santos e Elizabethe Antunes, localizada na comunidade Lagoa Redonda, a 60 quilômetros de Casa Nova. A família foi beneficiada com a cisterna-calçadão do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2) da Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA). Com a tecnologia, o casal desenvolve uma plantação de hortaliças, fruteiras entre outras. “Muita coisa mudou. Temos verduras e frutas para nossa alimentação”, comemora Elizabethe. Além da garantia da segurança alimentar, a cisterna-calçadão possibilitou a participação social dos agricultores, trazendo melhoria da qualidade de vida. 
 
Os agricultores e as agricultoras dos outros estados do Semiárido se identificaram com a história do casal e compartilharam entre si outras experiências. “É bom conhecer essas experiências para levarmos conhecimentos e passar para os que não vieram”, afirma Francisco Arcanjo, conhecido como Chico Gado, do Rio Grande do Norte.

Educação Contextualizada

Curaça- BA

Um grupo visitou o projeto de hortas pedagógicas na comunidade de São Bento, em Curaçá – BA. A iniciativa busca concretizar os processos educativos vivenciados em sala de aula a partir da educação contextualizada. A experiência é desenvolvida na Escola Municipal Liberato Félix Martins, mas também contou durante a visita com a participação da Escola Ararinha Azul. Inicialmente, houve uma apresentação da proposta “Educação de Pé no Chão no Sertão”, trabalhada nas duas escolas. Em seguida, os visitantes conheceram a horta. Na ocasião, os estudantes apresentaram duas peças teatrais, que abordaram o surgimento do projeto e as mudanças da proposta na comunidade. Outro destaque da visita foi a participação dos pais dos estudantes e pessoas da comunidade.

A coordenadora pedagógica da Escola Municipal Liberato Félix Martins, Ana Lúcia, diz que este foi um espaço de troca importante para todos, principalmente, para as crianças que puderam apresentar seus trabalhos e aprendizados. Uma opinião que foi compartilhada pelo grupo, que avaliou o trabalho como um grande exemplo de superação dos desafios na educação.

Auto-organização e direito das mulheres

Casa Nova – BA

Alegria e emoção deram o tom do intercâmbio sobre Auto-organização e Direito das Mulheres, na sede do Grupo de Mulheres Produtoras Tomásia, localizado no município de Casa Nova – BA.  O grupo formado por 22 pessoas, vindas dos estados Semiárido, além de representantes da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) e da Agência de Cooperação Internacional Heifer, conheceu a experiência de fabricação e comercialização solidária das petas, biscoito feito à base da goma da mandioca, conhecido em outras regiões como avoadores, sequilhos ou ginetes. Mesmo com dificuldades como a falta de infraestrutura, as mulheres vêm resgatando a cultura milenar da produção de alimentos típicos da região, garantindo um complemento para a renda e se envolvendo com os debates a respeito de questões relacionadas à desigualdade de gênero como, por exemplo, a violência doméstica.
 
Causou admiração aos visitantes a força das seis mulheres do Grupo Produtivo Tomásia que, integrado a Rede de Mulheres de Casa Nova, vem preservando a cultura da produção tradicional de petas e conquistando cada vez mais autonomia. A militante da Central Única dos Trabalhadores, Raimunda Mascena que participou da visita, destacou os pontos positivos da experiência. “Me chama a atenção o trabalho de resgate e preservação da cultura alimentar que essas mulheres estão fazendo, principalmente com o uso da farinha de mandioca. Outra coisa é a forma como elas mantêm a tradição de repassar a forma de fazer essas receitas e como inseriram essa prática na lógica da economia solidária. Essa experiência deve se irradiar por que o que une essas mulheres basicamente é a preservação da cultura alimentar e não necessariamente o objetivo de ganhar lucros financeiros”, afirma Raimunda.

Juazeiro – BA

Um grupo de 20 pessoas, entre agricultores, agricultoras, jovens, comunicadoras sociais e representantes de diversas entidades membro da ASA, foi recepcionado pela equipe da Pastoral da Mulher da Diocese de Juazeiro, no centro da cidade, com uma mística de acolhimento.

Na parte da manhã, foi feito um resgate histórico do trabalho da Pastoral, que tem como público principal mulheres em situação de prostituição. Em seguida, foram feitos debates e exposições de vídeos que abordaram a questão da prostituição e das relações de gênero.

O envolvimento do grupo no debate proporcionou uma troca de informações, experiências e análises sobre a realidade da mulher em diversas regiões do Semiárido brasileiro, bem como sobre o modo como as questões de gênero são trabalhadas nas ações de convivência com o bioma nos diversos estados.

Na parte da tarde, o grupo visitou o Espaço Girassol, uma experiência de economia solidária acompanhada pela Pastoral da Mulher. Cinco mulheres que já viveram ou ainda vivem em situação de prostituição receberam os/as visitantes com pães de queijo e sucos naturais, uma das três atividades desenvolvidas pelo grupo (culinária, artesanato e um salão de beleza). “Esse trabalho é muito importante para nós, na minha idade e difícil conseguir trabalho, me sinto realizada aqui no Girassol”, disse Dona Josefina, 68 anos.

“A história da prostituição vem muito da ausência de políticas públicas. Na Paraíba, só agora, no Dia Internacional da Mulher, foi criada a Secretaria Especial de Políticas Públicas para a Mulher”, disse Aparecida Firmino, do Centro de Educação e Organização Popular (CEOP), da Paraíba. Além de desenvolver arranjos produtivos para a geração de renda, o Girassol também trabalha o empoderamento, o protagonismo da mulher. “A gente conta com suporte psicológico e formação constante”, disse Ana Paula Santos, educadora social da Pastoral da Mulher.

Água

Comunidades do Ferrete e Fazenda do Meio – Curaça -BA

As famílias da comunidade de Ferrete, no município de Curaçá, Sertão do Sub-Médio São Francisco da Bahia estão na luta contra a construção de uma barragem que deve deslocar os moradores do local para dar passagem às águas do Velho Chico. A construção da obra deslocará mais de quatro mil pessoas de aproximadamente 20 comunidades de Curaçá e Juazeiro, na Bahia, e Orocó, Santa Maria da Boa Vista, Lagoa Grande e Petrolina, em Pernambuco. A barragem vai ser viabilizada pela Companhia Hidroelétrica do São Francisco (Chesf), com as empresas Odebrecht e Engevix. “Em nenhum momento fomos consultados sobre a construção dessa barragem. Dizem que vão trazer emprego para as pessoas daqui, mas e quando a construção terminar em que vamos trabalhar?”, questiona João Teles, integrante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e morador de Ferrete. “Além do mais eles falam que teremos uma vida melhor em outro local, com mais educação e saúde. Não acreditamos nisso. Tem gente com mais de 30 anos aqui, nossas raízes e nossa história estão aqui”, ressalta Teles.

A visita proporcionou uma troca de experiências muito interessante entre os visitantes. Muitos colocaram sugestões que pudessem fortalecer a mobilização da comunidade contra a construção da barragem. Outros passaram a conhecer uma realidade diferente da sua. Além disso, pessoas que tiveram sua história “levada” pela água também contaram a sua experiência. É o caso de Maria do Socorro de Miranda Alves, que foi atingida pela construção da barragem de Sobradinho, entre os anos de 1974 e 1975, no município de Casa Nova. “As empresas podem dizer que nossa  vida vai melhorar. Mas eu digo que nunca vai ser melhor depois de sua cidade ser levada por uma barragem. A gente sai do lugar de onde nasceu e eles ainda não cumprem as promessas de melhorias de vida e pagam uma indenização irrisória. Tem gente que não agüenta, que quer ficar onde nasceu. Por isso, a mobilização da comunidade é muito importante. Temos que encontrar caminhos e resistir contra os projetos de barragem”, ressalta Maria do Socorro. A visita contou ainda com uma visita ao rio São Francisco e terminou com um almoço na própria comunidade.

Agrobiodiversidade

Remanso – BA

O casal de agricultores João Cícero e Francisca da Silva, na comunidade Barra, a 38 km de Remanso –BA, desenvolvem experiências de agroecologia. Os visitantes do VII EnconASA conheceram as tecnologias do casal como a cisterna de enxurrada e técnicas de irrigação como o canteiro econômico, que evita o desperdício da água. Mas, o que chamou a atenção do grupo foi o Sistema Integrado de Produção, conhecido como Mandala. Nesse sistema não se usa veneno e o adubo usado no plantio é feito do esterco de patos e peixes que vivem ao redor ou dentro do tanque, bem no meio do cultivo. Uma experiência que o estudante de agronomia Diego de Albuquerque diz que não vai esquecer. “Isso aqui é uma comprovação de que existe forma de se produzir com qualidade, com baixo custo, usando a mão de obra da família e, ainda, sem agredir a natureza”, diz. Para o agricultor Cícero o entusiasmo do estudante é um reconhecimento de seu trabalho e um incentivo para dar continuidade as experiências agroecológicas. “Aprender a lidar com o Semiárido é tirar dela o sustento sem destruí-la. É isso que é a convivência com o Semiárido. Os jovens têm que aprender a conviver com o que temos e criar oportunidades de emprego aqui porque temos tudo que precisamos” ensina o agricultor.

Economia Popular Solidária

Comunidade Jenipapo- Jaraguari

Distante 15 km do município de Jaraguari-BA, a comunidade de Jenipapo tem 55 famílias de pequenos agricultores e agricultoras que plantam uma grande variedade de árvores frutíferas, como a banana, o maracujá e a jaca, além do feijão, da mandioca e da criação de gado, galinhas, porcos e outros animais.  A comunidade é um exemplo da prática de economia popular solidária que tem dado resultado. A experiência é fundamentada no beneficiamento de frutas nativas e tem como objetivo envolver a comunidade de forma a beneficiar de forma igualitária todos que participam do processo: mulheres, homens, jovens e crianças. No projeto, os/as agricultores/as foram beneficiados/as com o maquinário e a capacitação para a produção da polpa de frutas. Toda a comunidade é envolvida no trabalho. As tarefas são distribuídas igualitariamente entre homens e mulheres, assim como as despesas e o ganho.De acordo com Cristina Lima Silva, moradora do comunidade e integrante do grupo, a necessidade de apoio dos gestores públicos e infraestrutura básica, como água encanada são as necessidades mais iminentes do grupo.

Para José Waldir da Rocha, da Paraíba, que visitou a experiência “as trocas de conhecimentos realizadas durante os intercâmbios são importantes, pois trazem a percepção de que a ASA Brasil é composta por diversas comunidades em vários níveis de organização e as entidades que estão nessa dinâmica são estimuladas a ampliar os seus trabalhos, fortalecendo as redes comunitárias e organizacionais”.

TerraCasa Nova – BA

Os 20 participantes do EnconASA que visitaram a comunidade Areia Grande, no município de Casa Nova, impressionaram-se com a resistência das 366 famílias unidas na luta pelo fundo de pasto. Participaram do encontro as comunidades de Riacho Grande, Salinas, Jurema e Melancia, além de algumas comunidades vizinhas. Após a oração inicial e breve apresentação dos visitantes, Seu Joaquim, de 75 anos, e lideranças da comunidade contaram a história dessa terra onde as famílias criam animais de forma extensiva na Caatinga há 150 anos. A terra de 21 mil hectares foi comprada no final da década de 1970 pela empresa Camaragibe, através de falsos títulos de propriedade. A empresa faliu e alguns empresários da região adquiriram os títulos da dívida junto ao Banco do Brasil. Em 2008, os moradores foram vítimas de violência por parte dos empresários que enviaram capangas para expulsá-los da área onde eles tê 80 mil cabeças de animais e 9mil caixas de abelha. O Estado reconheceu no final de 2008 a natureza pública das terras e a legitimidade da ocupação tradicional, mas, as ameaças continuam e a briga com um juiz da Comarca de Casa Nova, que estaria do lado dos empresários, também.

Seu Antonino, da comunidade Riacho Grande, fez 85 anos ontem. Ele disse com lágrimas nos olhos que quis ficar na terra porque é o lugar onde nasceu e se criou, planta e cria gado, ovelha, bode e cavalo. “Eu moro afastado, mas, todo dia venho aqui com meu cavalinho vigiar as coisas, pois, se eu sair daqui vou pra onde?”, questiona.

Os visitantes fizeram perguntas sobre o dia a dia dos moradores e a comercialização dos animais e do mel que é feita na feira livre. Elogiaram a resistência e declararam solidariedade com a luta de Areia Grande. Océlia Santiago, da comunidade Uruá, município de Barreiras, Ceará, disse que foi a primeira vez que teve contato com uma realidade assim. “Já tiraram deles a água, tiraram parte da carnaúba. O que vão tirar agora? pergunta sensibilizada. Depois da conversa e do almoço preparado pelos homens da comunidade, com a ajuda das mulheres, os visitantes foram ao local onde os capangas destruíram as cercas e desmataram a Caatinga.

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