Resistência das comunidades ribeirinhas à construção das hidroelétricas de Riacho Seco e Pedra Branca

março 17, 2010

Acesso à Água
Ferrete e Fazenda do Meio – Curaçá – Bahia

Comunidade de Ferrete - Curaçá/BA

Os projetos de barragens de Riacho Seco e Pedra Branca se localizam na região do sub-médio São Francisco, ambas no rio São Francisco, atingindo diretamente os municípios pernambucanos: Orocó, Santa Maria da Boa Vista, Lagoa Grande e Petrolina; e as cidades baianas: Curaçá e Juazeiro.

Estes projetos estão incluídos nos 1.444 projetos de barragens que as empresas do setor energético e governo brasileiro pretendem construir no Brasil, vários destes projetos estão inclusos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal, entre eles as Barragens de Riacho Seco e Pedra Branca. As barragens inundarão áreas de diversas comunidades, ilhas e assentamentos.

A Companhia Hidroelétrica do São Francisco (Chesf), juntamente com as empresas Odebrecht e Engevix, são as responsáveis pelas obras de construção das hidroelétricas de Riacho Seco e Pedra Branca.

As barragens estão previstas para 2010. Com a implementação desses empreendimentos, 20 mil pessoas serão expulsa de seus lugares, de suas terras, em sua maioria camponeses, sem-terra, indígenas, quilombolas, pescadores e ribeirinhos. Nas comunidades previstas para serem inundadas, grande parte das pessoas vivem às margens do rio e não tem água encanada em suas casas. Exemplo vivo é a comunidade do Ferrete, localizada no município de Curaçá. Uma liderança dessa comunidade expressa: “as empresas querem é que viremos peixe para viver embaixo da água, mas nós queremos é continuar nas nossas comunidades, ter escola, moradia, saúde, ter o pescado, produzir comida. Nossa comunidade vizinha ( Poço da catingueira) tem água de qualidade através das cisterna,  e nós que moramos na beira do rio, por que não temos?”

Nos últimos 4 anos, as organizações dos agricultores sentiram necessidade de construir estratégias voltadas para o enfrentamento das construções   das barragens de Riacho Seco e Pedra Branca e, ao mesmo tempo, questionar o modelo de desenvolvimento e o  modelo energético brasileiro. Pelo histórico de construção de barragens no Brasil, existe a preocupação  com a violações dos direitos das famílias que serão atingidas pela barragem.

No início do processo, as entidades e pastorais existentes na região, entre elas a CPT, o STR de Curaçá e o STR de Santa Maria da Boa Vista, sentiram a necessidade de construir uma articulação com o MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens, por compreenderem que este é um movimento de massa que tem bastante experiência acumulada no enfrentamento às barragens e na luta pela garantia de direitos das famílias atingidas pelas barragens. Com esta compreensão, essas entidades demandaram que o MAB passasse a atuar nessa região.

O MAB, dentro da sua estratégia, definiu a região da Bacia do São Francisco como prioritária para o Movimento. Assim, pessoas foram deslocadas para atuar permanentemente na região, estruturando um escritório com uma secretaria em Juazeiro. Nesse processo, o MAB contou com o apoio das entidades da região.
 
A chegada do MAB na região contribuiu para articular as diversas entidades, movimentos, pastorais na luta contra o modelo energético adotado pelo governo brasileiro, principalmente contra a construção das hidroelétricas de Riacho Seco e Pedra branca. Coletivamente, as entidades assumiram o compromisso e vêm realizando nas comunidades um trabalho de formação das famílias. Esse trabalho tem contribuído para ampliar a visão sobre o modelo de desenvolvimento que vem sendo construindo na região.

As comunidades tradicionais são, usualmente, as mais atingidas pelos processos de construção de barragens e hidroelétricas para a geração de energia. Atualmente, estas comunidades (quilombolas, ribeirinhos, indígenas, pescadores, etc) têm sido os maiores atores no processo de resistência da privatização da água.

Na região vem sendo realizado um trabalho permanente nas comunidades, através de reuniões, debates, atos públicos, como o que aconteceu no distrito de Riacho Seco, com mais de 3 mil pessoas, no ano de 2006. Realização de mutirões nas comunidades ameaçadas pelas barragens; ocupação da Hidroelétrica de Sobradinho, no mês de junho de 2008; acampamento da juventude com 150 jovens de Curaçá – BA, realizado na comunidade do Ferrete nos dias 13 e 14 de março de 2009; assembléia popular dos ameaçados pelos projetos de barragens de Riacho Seco e Pedra Branca, com o objetivo de denunciar a construção das barragens, cobrar da CHESF, das empresas e poder público a responsabilidade, respeito com a população; e visitas de intercâmbios que possibilitam a troca de experiências, e o fortalecimento da luta pela vida e em  torno de um projeto de desenvolvimento popular que apresente alternativas ao modelo que vem sendo imposto.

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Fundo de Pasto – uma história de resistência

março 17, 2010

Acesso à Terra
Areia Grande – Casa Nova – Bahia

Areia Grande é o atual nome de um antigo território de “fundo de pasto”. O nome foi dado na prática por 366 famílias de quatro comunidades das caatingas de Casa Nova, Bahia, ao norte do Lago de Sobradinho: Riacho Grande, Salinas, Jurema e Melancia. Eles habitam esta região desde os anos de 1850. Vivem tradicionalmente da agricultura de subsistência, criação de caprinos, ovinos e bovinos, para o que este território de uso comum é o mais importante, pois é onde os animais pastam coletivamente (fundo de pasto). As famílias também trabalham com a apicultura, aproveitando a florada da nativa caatinga. Esta atividade tem contribuindo com preservação da caatinga.

História da resistência – Desde os anos 1970, estas comunidades resistem a várias investidas do grande capital através de projetos de infraestrutura, como a barragem de Sobradinho e perímetros irrigados, e empresas como as de agrocombustíveis.

A primeira ameaça se deu com a construção da barragem de Sobradinho, construída na década de 1970, e a primeira resistência das famílias foi não aceitar a mudança para outra região. A intenção do governo era levar essas famílias para as agrovilas construídas no município de Bom Jesus da Lapa, distante 700 km. Apesar de todas as perdas, a maior parte das famílias fez a opção de permanecer na região.

Em 1979, a empresa carioca Agroindustrial Camaragibe, ajudada por políticos locais, “adquire” terras da comunidade de Riacho Grande. O empreendimento visava produzir álcool de mandioca. Com recurso do governo federal, foi estruturada uma usina de álcool. Nacionalmente, esse projeto ficou conhecido como “escândalo da mandioca”. Este foi um caso de desvio de recurso publico, os empresários forjavam perda da safra no momento em que iam quitar os empréstimos feitos junto ao Banco do Brasil.

A empresa entra na Justiça contra os posseiros, mas o pedido de reintegração de posse foi negado pelo juiz da Comarca de Casa Nova, que acaba sendo transferido. O Instituto de Terras da Bahia (INTERBA) mede e titula parte das terras do Riacho Grande, reconhecendo que aquelas terras são devolutas, ou seja, pertencem ao Estado.

O INTERBA foi extinto e no estado da Bahia foi criado órgão sucessor, a Coordenação de Desenvolvimento Agrário (CDA), que não chegou a conclui os trabalhos. A empresa se aproveita e se instala em grande parte das terras. Também o INCRA é acionado diversas vezes, sem resposta suficiente. Apesar da relativa vitória da comunidade de Riacho Grande, a Camaragibe põe-se em funcionamento, o que não impede que os posseiros continuem a soltar seus animais e produzir nas áreas. Nesse período, as famílias posseiras tiveram suas terras invadidas, ficando escasso o espaço para a atividade principal, que é a criação de animais no sistema extensivo – solto na caatinga. A comunidade resiste a todas as violências, no que serve de exemplo para toda a região.

Com o “escândalo da mandioca”, a empresa deixa o local e uma dívida milionária junto ao Banco do Brasil. Os posseiros recuperam o uso de toda a área – a Areia Grande. Nela, atualmente, eles têm 3 mil caixas para criação de abelha, o que gera 30 mil litros de mel por ano e 13 mil cabeças de caprinos e ovinos.
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O caso atual – Após 20 anos de aparente tranqüilidade, em março de 2008, efetivos da Polícia Militar, da Polícia Civil, da Polícia da Caatinga e um policial que se diz da Polícia Federal de Pernambuco, sob supervisão de um Oficial de Justiça, com truculência e abuso de autoridade, entram na área para expulsar os posseiros. Casas, chiqueiros, currais, roçados, cercas e até um centenário juazeiro são destruídos. Exigem a retirada das colméias e do criatório.

No inicio de 2008, o juiz de Casa Nova conferiu aos empresários da região a “propriedade” das terras de fundo de pasto que foram “compradas”, no final da década de 1970 pela empresa Camaragibe. A propriedade grilada pela Camaragibe foi ilegalmente transferida aos empresários, que ingressaram com uma ação de Imissão de Posse visando legitimar, através de decisão judicial, os falsos títulos adquiridos. Policiais e prepostos de supostos empresários interessados na área destruíram casas, chiqueiros, currais e roçados das famílias. A saída da policia da área não desanimou os prepostos de dois empresários, que se intitulam como “novos donos” da localidade. Guarnecidos por milícia armada, realizam a “faxina” da área, tentando apagar vestígios da posse e moradia.

Os moradores acampam no local para impedir a continuidade da destruição de suas benfeitorias. Nove capangas encapuzados, portando armas de grosso calibre, invadem o acampamento com tiros, ameaças de morte, agressões físicas a mulheres e crianças, usando-as como escudo. Chega um destacamento policial, que não reprime os jagunços.

Luto e vitórias – Em novembro de 2008, o Estado reconhece tanto a natureza pública das terras, quanto a legitimidade de sua ocupação tradicional, e inicia ação discriminatória administrativa das posses.

No dia 4 de fevereiro de 2009, é encontrado o corpo de um dos líderes dos posseiros, Zé de Antero, que nunca deixou a área, onde nela foi brutalmente assassinado. As comunidades não desanimam.

No dia 1º de julho de 2009, mais uma vitória com a anulação da sentença, pelo Tribunal de Justiça, da Imissão de Posse que ratificava o processo de grilagem de terras públicas.

Atualmente, sob vigilância constante, as comunidades vivem na Areia Grande. Continuam lutando pela discriminatória judicial e anulação definitiva dos títulos fraudulentos, regularização do território, recuperação das perdas materiais, investigação e punição dos culpados pela morte de Zé de Antero. Vivem repetindo o que Zé gostava de dizer: “Essa luta não para enquanto a justiça não triunfar”.


Organização social e luta pela água

março 17, 2010

Acesso à Água
Vale do Salitre – Juazeiro – Bahia

Até a década de 1970 o rio Salitre corria o ano todo. Os agricultores do Salitre abasteciam a cidade de Juazeiro com verduras, legumes e frutas, plantados com pequena irrigação, muitas vezes totalmente artesanal, numa faixa a mais de 100 metros da margem do rio Salitre, respeitando a mata ciliar. O Vale do Salitre sempre se destacou pela fertilidade de seu solo.

Na década de 1980 chegaram os grandes produtores, inclusive japoneses, sobretudo no médio e alto salitre, apossaram-se das terras e implantaram grandes plantações irrigadas de melão, cebola e tomate, usando motores potentes que sugavam toda a água, interrompendo o fluxo do rio. Essa prática tornou o Salitre um rio intermitente e desestruturou toda a vida dos salitreiros tradicionais. Por outro lado, o tipo de agricultura especulativa contaminou a forma tradicional de cultura e os próprios salitreiros investiram na monocultura, acabando de vez com a forma tradicional de cultura e desmatando as margens do rio, favorecendo o assoreamento e a poluição com uso cada vez mais intensivo de agrotóxicos e adubos químicos.

O baixo e médio Salitre foram as áreas mais afetadas pela falta de água. A reação iniciou-se a partir das Comunidades Eclesiais de Base, as CEBs, que abordavam os problemas das comunidades locais. Na década de 1980 as discussões focaram o associativismo como instrumento de organização, superação dos problemas e busca de melhores condições de vida. A Associação Comunitária dos Lavradores do Recanto Santa Terezinha e Bebida (ASCLAREC) foi pioneira nesta busca. Fundada em 19 de fevereiro de 1987 tem como um de seus objetivos assegurar o abastecimento de água para a população e contribuir na busca de melhoria da qualidade de vida das famílias agricultoras. A iniciativa de fundar a ASCLAREC surgiu dos moradores da comunidade de Recanto, mas a Associação congrega, também, comunidades vizinhas. Entre as lideranças que iniciaram o trabalho destacam-se Leonice Rocha da Silva, Nival Gomes da Silva, Renilde, Bernardete, Jardilina, Edgar Ferreira e José Ribeiro, que prestaram assessoria, pois já faziam parte de outras associações

Uma das iniciativas da ASCLAREC foi a implantação da roça comunitária onde os associados podem ter seus plantios e também criar animais de pequeno porte. É uma das poucas áreas do Salitre onde ainda existe mata ciliar. Ali também se iniciou a experiência de cultivo de hortaliças em canteiros econômicos com água armazenada na cisterna de produção. A terra para a roça comunitária foi cedida por duas famílias das comunidades e que participam da Associação

A partir da ASCLAREC outras associações foram surgindo e, no final da década de 1990, foi formada a União das Associações do Vale do Salitre, a UAVS. As associações foram criando uma tradição de organização e luta que até hoje persiste, apesar de todos os problemas enfrentados. Isso é um ganho social significativo da população.

Com o fortalecimento da organização, partiu-se para uma luta mais ampla pela água. A solução encontrada foi a construção de barragens sucessivas que, através de bombeamento, levam água do rio São Francisco até o médio Salitre. Inverteu-se a natureza. O Salitre deixou de ser afluente do São Francisco e passou a importar água do mesmo.
 
Essa forma de garantir água para a produção tem causado, por um lado, abastecimento para que os agricultores continuem sua produção, por outro, a salinização mais acentuada da água e da terra.

Mesmo assim, a grande maioria dos agricultores do Salitre só planta no período das chuvas, pois os gastos para poderem usar a água das barragens sucessivas estão muito além das possibilidades econômicas. Aí, a necessidade de se buscar alternativas. Entre as quais está a intensificação da criação de caprinos e o uso racionalizado da água em plantios de subsistência nos períodos chuvosos ou com água acumulada nas cisternas de produção.

A água das barragens sucessivas serve para produção. Permanecia o impasse para a água de consumo humano. A água das barragens, com uma alta concentração de sal, não podia tornar-se potável. Mais uma vez, a ASCLAREC foi à luta e, em parceria com a Diocese de Juazeiro, como Unidade Executora Local, está implantando, ao longo do Vale do Salitre, o Programa Um Milhão de Cisternas, o P1MC, para o abastecimento humano. Já as cisternas de produção são voltadas para garantir segurança alimentar para as famílias mais prejudicadas com a intermitência do Rio Salitre. A agricultura orgânica na roça comunitária – com o apoio do técnico Anderson Fabiano Rocha da Silva – está se estendendo para a produção de verduras com água das cisternas de produção.

Além da luta pela água a ASCLAREC, em parceria com diversos órgãos, participa:
– nos procedimentos de manutenção (limpeza) do rio Salitre;
– na construção de sanitários;
– na melhoria habitacional – com fundo solidário;
– na organização de cursos de capacitação;
– nas gestões para melhorar a educação e a saúde – André Azevedo Rocha (estudante de pedagogia) e Minéia Clara dos Santos (Agente de saúde) mobilizam os moradores para esta busca;
– na administração do uso da água do rio Salitre no trecho das barragens sucessivas;
– no Comitê da Bacia do Rio Salitre.


Agricultores retomam suas terras

março 17, 2010

Acesso à Terra
Acampamento Nossa Terra – Ponto Novo – Bahia

O Acampamento Terra Nossa está localizado no município de Ponto Novo – Bahia. Mais precisamente às margens da BR 407, sentido Capim Grosso/Senhor do Bonfim/Juazeiro. Ocupa uma área de terra dentro do perímetro irrigado com 60 famílias.

No ano de 1998, foi construída uma barragem no rio Itapicuru com posterior implantação de um projeto de irrigação. As terras antes pertenciam aos pequenos agricultores, hoje “pertencem” aos empresários que exploram a mão-de-obra no município. Foi um projeto que acabou com o sossego e a vida digna dos camponeses que tinham sua propriedade e na terra de tudo um pouco produziam para se alimentarem, praticando a agricultura de subsistência, orgânica e diversificada. Desde então, os agricultores ou camponeses que tiveram suas terras inundadas permaneceram na expectativa de receberem lotes irrigados.

Nesta região, a construção de barragens é precedida da limpeza da área, isto é, da remoção, através de propaganda enganosa e de promessas de terras e de irrigação, de toda a população que será atingida. Isso aconteceu também em Ponto Novo. Só que as promessas feitas de assentamento não se concretizaram, e as terras foram loteadas com empresários que ali implantaram projetos de irrigação com a finalidade de produzirem para o mercado, sem se preocuparem com o alimento básico das famílias.

Em 11 de junho de 2008, a indignação dos camponeses que haviam perdido suas terras chegou no limite e, articulados com outros camponeses da região e com os movimentos sociais (MPA, CPT, CETA) , retomaram suas terras. São 60 famílias acampadas e todas almejam produzir ecologicamente e permanecer criando seus filhos, tendo educação contextualizada, de qualidade e pública, infraestrutura e tudo que uma família merece para gozar de uma vida simples, mas digna.

Produção de hortaliças para consumo das famílias e venda na feira

É um acampamento de resistência dos camponeses para permanecerem na terra e nela produzirem de tudo um pouco. Além da horticultura, cultivam feijão, milho, mandioca, melancia, abóbora, batata doce, dentre outros. As famílias acampadas estão buscando alternativas de convivência e sustentabilidade com a caatinga que ainda resta na região. Inclusive desenvolvendo projeto de horta comunitária agroecológica pelo Fundo Nacional de Solidariedade (FNS), da CNBB, e ampliando a área agrícola nas terras ocupadas para a safra de inverno.

A produção interna das unidades familiares gera nas pessoas uma autoestima e identidade camponesa perdida ao longo do tempo. Representa também economia de recursos, alimentação diversificada, saudável e geração de excedente, que por muitas vezes é vendido na feira da cidade. O fortalecimento das relações de gênero, cooperação e solidariedade, têm grande importância para as famílias acampadas.

As famílias que reocuparam suas terras priorizam a afirmação da identidade camponesa, o fortalecimento da comunidade, a diversidade produtiva, o respeito pelo meio ambiente, a solidariedade entre campo e cidade, com o objetivo de produzir comida saudável para as famílias acampadas e para as famílias pobres da cidade, devolver a própria dignidade através do direito de ter terra para trabalhar e viver de forma sustentável no âmbito econômico, ecológico, social e cultural.

O acampamento tem hoje 60 famílias e desenvolve atividades coletivas e individuais que envolvem a participação de jovens, mulheres e homens, na produção e  na construção de suas moradias.

Casas de adobe preservam o meio ambiente

As moradias, dentro do acampamento, estão sendo levantadas em adobe – madeira e barro – preservando a maneira secular de construção no sertão.
As ameaças de expulsão são constantes. Os afortunados pelas políticas governamentais não querem ceder um filão de terra produtiva para os acampados que, simplesmente, retomaram suas terras perdidas quando da construção da barragem e, como agricultores familiares, produzem o alimento que vai para a mesa do brasileiro.

O direito à terra é o movente principal desta luta. Junto vem a preservação do modo campesino de viver, da cultura ancestral, da diversidade própria da agricultura familiar, do respeito pelo meio ambiente no modo de viver e de produzir, da solidariedade entre as famílias e destas com a cidade.


Cisterna-calçadão enriquece a alimentação da família de Edésio e Elisabeth

março 9, 2010

Segurança alimentar e nutricional
Lagoa Redonda – Casa Nova – Bahia

Edésio, Ailton e Elisabeth constroem nova vida

A 60 quilômetros da cidade de Casa Nova, município do estado da Bahia, fica a comunidade Lagoa Redonda, localidade onde 5 famílias receberam a cisterna de produção, também chamada cisterna-calçadão. Entre elas, a família de  Edésio Santos Antunes e Elizabeth Gomes Antunes. O casal só tem 1 filho já adolescente, Ailton Gomes Antunes.

Depois da construção da cisterna, dá gosto visitar o quintal da casa de Edésio e de Elizabeth. Está tudo no início, mas a família já se serve da produção de verduras. Nesse período o cuidado tem sido dobrado, afirma Elizabeth. O sol castiga muito a plantação, é tempo da seca. O tomate é o mais prejudicado. O que tem colhido dos canteiros é alface, cebolinha e coentro para consumo da família.

Edésio construiu um canteiro no chão e outro suspenso que viu em uma foto divulgada em um boletim que recebeu nas capacitações que tem participado do SASOP. Conta que já tinha visto um canteiro suspenso em uma das visitas de intercâmbio e a invenção havia lhe chamado muito a atenção. Para ele, é uma satisfação apresentar o primeiro canteiro que fez. Plantou cebolinha, pimentão e plantas medicinais. Na parte de baixo do canteiro também fez plantio, para aproveitar a água que cai quando molha as plantas de cima.

Já foram construídos mais 6 canteiros, conhecidos como canteiros econômicos.  O canteiro econômico é uma das tecnologias apresentadas nos cursos destinados às famílias que conquistaram a cisterna-calçadão. Com a construção desses canteiros busca-se incentivar a produção de verduras e melhorar a segurança alimentar e nutricional da família.

Canteiro de alface e coentro

Elizabeth e Edésio dizem que com a chegada da cisterna de produção tudo mudou na vida da família. Antes só se alimentavam de feijão, mandioca, abóbora, farinha, ovos, além de outras misturas trazidas da cidade. Fruta, só melancia. Hoje, a família come verduras do quintal, e antes nem imaginava que um dia isso poderia acontecer. A comida é temperada com verduras fresquinhas. Aguardam o desenvolvimento das frutas para melhorar mais ainda a alimentação e a renda familiar.

Depois que começou a participar dos cursos e intercâmbio pelo SASOP,  Edésio fala que a sua visão é outra em relação a vida, e de como lidar com o seu sistema de produção. Quando ia preparar a terra para plantar, limpava todo roçado e queimava. Hoje valoriza tudo que está lá. Edésio reconhece que tudo é nutriente para o solo e as plantas.

O esterco, por exemplo, que há pouco tempo vendia, hoje é usado como adubo em toda a plantação. Ele fez mudança no chiqueiro das cabras e prepara o local para plantar as mudas de leucena para consorciar com as palmas, e melhorar a alimentação animal. Pois, percebeu que as palmas mais próximas ao chiqueiro estão mais viçosas.

Edésio e Elizabeth contam com a ajuda do filho Ailton, e dizem que, por eles, passariam o dia todo no quintal cuidando das mudas de frutas e dos canteiros. Nas fruteiras usam o sistema de gotejo com uso de garrafas pet. Têm mudas de acerola, limão, banana, maracujá do mato, maracujina, entre outros. Para os canteiros usam o regador, mas já compraram uma mangueira com bicos para facilitar o manejo.

Para a renda mensal contam com o Bolsa Família, no valor de 80 reais, e a venda de algum animal quando é necessário. O alimento básico é produzido na roça, como feijão, abóbora e mandioca, com a qual produzem a farinha. O ovo sempre tem no quintal. Também tem a carne de criação ou de galinha, mas que não fazem parte da refeição diária. Elizabeth e Ailton, além dos afazeres domésticos e da escola, ajudam na labuta do dia a dia com o quintal, roça e animais.

O sonho de Edésio é fazer uma plantação de maracujina para comercializar na região. Diz ser uma experiência nova, mas o que lhe anima são os resultados que tem observado nas visitas de intercâmbio, e o que tem experimentado no quintal. O objetivo é garantir uma vida com mais qualidade para a família.


Produção diversificada melhora alimentação e gera renda para a família de Seu Isaías e Dona Edite

março 9, 2010

Segurança  alimentar e nutricional
Testa Branca – Uauá – BA

A Propriedade do Sr. Isaias Ribeiro e dona Edite Ferreira, denominada Sítio Belo Monte, fica localizada na comunidade de Testa Branca, a 22 quilômetros da cidade de Uauá, no sertão da Bahia. Com eles mora um casal de filhos: Edna, de 20 anos e Isaac, de 18 anos.

A área de 55 hectares é dividida em subáreas destinadas para diversas atividades de produção. Existe área de cultivos usada para pastagens de cabras e ovelhas, área de plantio da roça familiar, área de produção com diversos tipos forragens (palma, leucena, gliricídia, manipepa…) e ainda, área para o pomar com goiaba, manga, coco, e mais recentemente, para o plantio de umbu, tudo cultivado de forma orgânica.

Com toda essa diversidade de cultivos na propriedade, a família do Sr. Isaias e dona Edite pode produzir, de forma natural, alimentos em quantidade suficiente para atender as necessidades dos animais e garantir a segurança alimentar da família.

BENEFICIAMENTO GERA RENDA E MELHORIA NA ALIMENTAÇÃO FAMILIAR

O sistema de criação é mantido sob muitos cuidados. O rebanho que passa boa parte do dia pastando nas áreas de fundo de pasto é recolhido para o chiqueiro no final do dia. No chiqueiro, os animais são observados e tratados. Nesse mesmo espaço, eles ocupam divisórias separadas. As cabras que estão sendo ordenhadas ficam em um local especifico, assim como as que estão em fase de crescimento ou em tratamento.  É no chiqueiro que seu Isaias e dona Edite cuidam da saúde dos animais fazendo a vermifugação periódica do rebanho, principal fonte de renda da família. Os animais criados prioritariamente para a produção de carne, agora estão sendo aproveitados na produção de leite usada na fabricação de queijos, doces e iogurtes. Boa parte dos produtos derivados de leite é beneficiada e comercializada em um lacticínio instalado na comunidade, assim como acontece com o umbu e o maracujá da caatinga também beneficiados através da Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (Coopercuc). Esta produção diversificada enriquece a alimentação e complementa a renda da família.

O sistema de abastecimento de água da propriedade atende as necessidades básicas da família. A propriedade dispõe de três cisternas, duas são usadas para o consumo humano e uma para as necessidades dos animais, incluindo a limpeza do chiqueiro. Há ainda um caxio com seis metros de comprimento por dois de profundidade usado como suplemento de água para o consumo da família, e duas cacimbas para o suplemento de água para os animais. Seu Isaias também possui o dom para encontrar água subterrânea, através da uma técnica chamada hidroestesia ( sensibilidade que permite uma pessoa localizar água debaixo do chão), contribuindo assim para que muitas familias do Semiárido garantam mais uma fonte de água através de cacimbas e poços tubulares.

DESAFIOS A SEREM SUPERADOS

Para manter esse modelo de propriedade, a família não conta com nenhum investimento por meio de crédito bancário. Os rendimentos gerados pela comercialização dos produtos derivados das frutas e do leite ajudam a família fazer os investimentos mais necessários, embora a propriedade precise de recursos para melhorar as fontes de água e para um melhoramento genético do rebanho a partir dos animais de raças que existem na propriedade.

UNIDADE DEMONSTRATIVA

A propriedade serve como unidade demonstrativa devido ao seu sistema de manejo e produção bastante diversificado e tem sido muito visitada principalmente por professores e estudantes, a maioria ligada a entidades que desenvolvem projetos na linha da educação contextualizada. Pesquisadores e jornalistas que também visitam a propriedade reconhecem a experiência como muito exitosa em se tratando de fonte de informação acerca de uma modelo de produção que garanta  fartura  e diversidade de  alimentos  e água  suficientes para toda uma família. A mesma tem sido utilizada como fonte para elaboração de material informativo para entidades populares e para órgãos do governo, a exemplo da Embrapa.

16 ANOS DE SEGURANÇA ALIMENTAR E CONVIVÊNCIA COM O SEMIÁRIDO

A propriedade começou a ser planejada como modelo de convivência com o Semiárido desde 1993, quando o Sr. Isaias participou de uma capacitação para agricultores promovida pelo Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa). Ao longo desses 16 anos, a família tem experimentado diversas formas de planejar uma produção com segurança de acordo as condições climáticas típicas da região.

A garantia da produção diversificada de alimento em qualidade é suficiente para o ano inteiro, tanto para a família, como para o rebanho através das forragens, o que tem chamado a atenção daqueles que visitam a propriedade. Para o Sr. Isaias e dona Edite, esse sistema de manejo e produção é o que mais caracteriza a propriedade como uma experiência apropriada à realidade climática da região semiárida. Garantindo soberania alimentar para sua família e sendo exemplo para a comunidade de Testa Branca e para os municípios de Uauá, Canudos e Curaçá, onde muitas famílias já desenvolvem modelos de propriedades semelhantes a de seu Isaias e dona Edite.


Gênero e geração de renda – A experiência da Rede de Mulheres com beneficiamento da mandioca

março 3, 2010

Auto-organização e direito das mulheres
Casa Nova – Bahia 

Integrantes da Rede de Mulheres de Casa Nova-BA

Em Casa Nova, município onde a agricultura irrigada é foco da economia, existe a Rede de Mulheres, que trabalha gênero e geração de renda a partir da economia solidária.  Casa Nova fica a 70 quilômetros de Juazeiro, cidade pólo do território do Sertão do São Francisco.

A Rede de Mulheres de Casa Nova e da região surgiu em 2001, a partir do trabalho desenvolvido pela Pastoral da Mulher da Diocese de Juazeiro. Desde o início, a Rede Municipal e Regional tem como objetivo integrar as mulheres para refletirem sobre o cotidiano e seus problemas, conta Marileide Alves da Silva, conhecida por Leda, que atualmente faz parte da coordenação regional da Rede de Mulheres.

A Rede busca melhorar a autoestima, faz esclarecimentos sobre vários assuntos e desperta as mulheres para a produção e geração de renda, complementam Diva Carvalho e Beatriz Araújo, que também fazem parte da coordenação. Beatriz anima e orienta o grupo de produção de alimentos. É ela quem traz a memória de seus antepassados nas receitas, mas sempre dosando com sua criatividade e do grupo. Participa de intercâmbios de experiências em outras cidades e nas comunidades.

Hoje a Rede Municipal tem em torno 25 participantes e atua em 3  localidades do município de Casa Nova: na sede, em São Luiz e em Santana do Sobrado. O grupo vivencia muitas experiências com funções diversificadas. Tem mulheres artesãs, doceiras, pescadoras, agricultoras, professoras e garis.

Em 2006, a Rede sentiu necessidade de trabalhar geração de renda, pois algumas mulheres estavam desempregadas e outras precisando complementar a renda familiar. Logo em seguida, iniciou um trabalho com mulheres interessadas em beneficiamento de  frutas nativas e de quintal. Os cursos foram realizados pelo IRPAA – Instituto Regional de Pequena Agricultura Apropriada, e SASOP – Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais.

Beatriz já tinha experiência com beneficiamento de derivados da mandioca e, nesse mesmo período, realizou capacitações com algumas mulheres da Rede que estavam dispostas a desenvolver um trabalho com produção. Com o resultado positivo, até hoje, o grupo continua animado.

Grupo embalando produtos

Atualmente, o grupo de beneficiamento da mandioca é formado por 6 mulheres que atuam na produção de biscoitos doces e salgados; petas, conhecidas em outras regiões por avoadores; sequilhos, também conhecido por ginetes. Tudo feito da tapioca. Recentemente, iniciaram outra linha de produção com bolos e salgados para festas, que só fazem sob encomenda. Ao longo desses 3 anos, mesmo com a renda mensal pequena, é o que tem mantido o grupo estimulado a dar continuidade, conta Beatriz.

A produção é desenvolvida no fundo de quintal, na casa de Beatriz. E por não ter uma infraestrutura, o grupo avalia que o que falta é produto e não mercado. Nas sextas e sábados vendem os produtos na feira que fica no centro da cidade, em Casa Nova, e aos domingos em Santana do Sobrado. Semanalmente abastecem supermercados e mercearias. A renda mensal líquida é em torno de 600 reais, e cada participante recebe por produção.

Para Leda, a atividade que o grupo realiza se interrelaciona com a de pequenos produtores, a partir da matéria prima, a tapioca, formando uma cadeia produtiva que, aos poucos, garante a renda para sobrevivência, fortalece o grupo em rede, resgata a tradição dos produtos da tapioca e valoriza a cultura da mandioca.

Uma das conquistas, afirmada por todas, é fazer parte da Rede Sabor Natural do Sertão, que realiza intercâmbios, integração e fortalecimento entre os grupos da região, facilita capacitações para aperfeiçoamento e reflexões sobre economia solidária, além de viabilizar as vendas e contatos em outros espaços regional e nacional, através de feiras, e comercialização no exterior, em países como Itália e Alemanha.

Os desafios são muitos, é o que afirmam Beatriz, Diva e Leda. Primeiro pela falta de estruturas física e documental, que inviabilizam o grupo participar da merenda escolar do município, através do Programa de Aquisição de Alimento, o PAA. Mas continuam firmes, porque acreditam na linha da economia solidária.