Resistência das comunidades ribeirinhas à construção das hidroelétricas de Riacho Seco e Pedra Branca

março 17, 2010

Acesso à Água
Ferrete e Fazenda do Meio – Curaçá – Bahia

Comunidade de Ferrete - Curaçá/BA

Os projetos de barragens de Riacho Seco e Pedra Branca se localizam na região do sub-médio São Francisco, ambas no rio São Francisco, atingindo diretamente os municípios pernambucanos: Orocó, Santa Maria da Boa Vista, Lagoa Grande e Petrolina; e as cidades baianas: Curaçá e Juazeiro.

Estes projetos estão incluídos nos 1.444 projetos de barragens que as empresas do setor energético e governo brasileiro pretendem construir no Brasil, vários destes projetos estão inclusos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal, entre eles as Barragens de Riacho Seco e Pedra Branca. As barragens inundarão áreas de diversas comunidades, ilhas e assentamentos.

A Companhia Hidroelétrica do São Francisco (Chesf), juntamente com as empresas Odebrecht e Engevix, são as responsáveis pelas obras de construção das hidroelétricas de Riacho Seco e Pedra Branca.

As barragens estão previstas para 2010. Com a implementação desses empreendimentos, 20 mil pessoas serão expulsa de seus lugares, de suas terras, em sua maioria camponeses, sem-terra, indígenas, quilombolas, pescadores e ribeirinhos. Nas comunidades previstas para serem inundadas, grande parte das pessoas vivem às margens do rio e não tem água encanada em suas casas. Exemplo vivo é a comunidade do Ferrete, localizada no município de Curaçá. Uma liderança dessa comunidade expressa: “as empresas querem é que viremos peixe para viver embaixo da água, mas nós queremos é continuar nas nossas comunidades, ter escola, moradia, saúde, ter o pescado, produzir comida. Nossa comunidade vizinha ( Poço da catingueira) tem água de qualidade através das cisterna,  e nós que moramos na beira do rio, por que não temos?”

Nos últimos 4 anos, as organizações dos agricultores sentiram necessidade de construir estratégias voltadas para o enfrentamento das construções   das barragens de Riacho Seco e Pedra Branca e, ao mesmo tempo, questionar o modelo de desenvolvimento e o  modelo energético brasileiro. Pelo histórico de construção de barragens no Brasil, existe a preocupação  com a violações dos direitos das famílias que serão atingidas pela barragem.

No início do processo, as entidades e pastorais existentes na região, entre elas a CPT, o STR de Curaçá e o STR de Santa Maria da Boa Vista, sentiram a necessidade de construir uma articulação com o MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens, por compreenderem que este é um movimento de massa que tem bastante experiência acumulada no enfrentamento às barragens e na luta pela garantia de direitos das famílias atingidas pelas barragens. Com esta compreensão, essas entidades demandaram que o MAB passasse a atuar nessa região.

O MAB, dentro da sua estratégia, definiu a região da Bacia do São Francisco como prioritária para o Movimento. Assim, pessoas foram deslocadas para atuar permanentemente na região, estruturando um escritório com uma secretaria em Juazeiro. Nesse processo, o MAB contou com o apoio das entidades da região.
 
A chegada do MAB na região contribuiu para articular as diversas entidades, movimentos, pastorais na luta contra o modelo energético adotado pelo governo brasileiro, principalmente contra a construção das hidroelétricas de Riacho Seco e Pedra branca. Coletivamente, as entidades assumiram o compromisso e vêm realizando nas comunidades um trabalho de formação das famílias. Esse trabalho tem contribuído para ampliar a visão sobre o modelo de desenvolvimento que vem sendo construindo na região.

As comunidades tradicionais são, usualmente, as mais atingidas pelos processos de construção de barragens e hidroelétricas para a geração de energia. Atualmente, estas comunidades (quilombolas, ribeirinhos, indígenas, pescadores, etc) têm sido os maiores atores no processo de resistência da privatização da água.

Na região vem sendo realizado um trabalho permanente nas comunidades, através de reuniões, debates, atos públicos, como o que aconteceu no distrito de Riacho Seco, com mais de 3 mil pessoas, no ano de 2006. Realização de mutirões nas comunidades ameaçadas pelas barragens; ocupação da Hidroelétrica de Sobradinho, no mês de junho de 2008; acampamento da juventude com 150 jovens de Curaçá – BA, realizado na comunidade do Ferrete nos dias 13 e 14 de março de 2009; assembléia popular dos ameaçados pelos projetos de barragens de Riacho Seco e Pedra Branca, com o objetivo de denunciar a construção das barragens, cobrar da CHESF, das empresas e poder público a responsabilidade, respeito com a população; e visitas de intercâmbios que possibilitam a troca de experiências, e o fortalecimento da luta pela vida e em  torno de um projeto de desenvolvimento popular que apresente alternativas ao modelo que vem sendo imposto.

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Fundo de Pasto – uma história de resistência

março 17, 2010

Acesso à Terra
Areia Grande – Casa Nova – Bahia

Areia Grande é o atual nome de um antigo território de “fundo de pasto”. O nome foi dado na prática por 366 famílias de quatro comunidades das caatingas de Casa Nova, Bahia, ao norte do Lago de Sobradinho: Riacho Grande, Salinas, Jurema e Melancia. Eles habitam esta região desde os anos de 1850. Vivem tradicionalmente da agricultura de subsistência, criação de caprinos, ovinos e bovinos, para o que este território de uso comum é o mais importante, pois é onde os animais pastam coletivamente (fundo de pasto). As famílias também trabalham com a apicultura, aproveitando a florada da nativa caatinga. Esta atividade tem contribuindo com preservação da caatinga.

História da resistência – Desde os anos 1970, estas comunidades resistem a várias investidas do grande capital através de projetos de infraestrutura, como a barragem de Sobradinho e perímetros irrigados, e empresas como as de agrocombustíveis.

A primeira ameaça se deu com a construção da barragem de Sobradinho, construída na década de 1970, e a primeira resistência das famílias foi não aceitar a mudança para outra região. A intenção do governo era levar essas famílias para as agrovilas construídas no município de Bom Jesus da Lapa, distante 700 km. Apesar de todas as perdas, a maior parte das famílias fez a opção de permanecer na região.

Em 1979, a empresa carioca Agroindustrial Camaragibe, ajudada por políticos locais, “adquire” terras da comunidade de Riacho Grande. O empreendimento visava produzir álcool de mandioca. Com recurso do governo federal, foi estruturada uma usina de álcool. Nacionalmente, esse projeto ficou conhecido como “escândalo da mandioca”. Este foi um caso de desvio de recurso publico, os empresários forjavam perda da safra no momento em que iam quitar os empréstimos feitos junto ao Banco do Brasil.

A empresa entra na Justiça contra os posseiros, mas o pedido de reintegração de posse foi negado pelo juiz da Comarca de Casa Nova, que acaba sendo transferido. O Instituto de Terras da Bahia (INTERBA) mede e titula parte das terras do Riacho Grande, reconhecendo que aquelas terras são devolutas, ou seja, pertencem ao Estado.

O INTERBA foi extinto e no estado da Bahia foi criado órgão sucessor, a Coordenação de Desenvolvimento Agrário (CDA), que não chegou a conclui os trabalhos. A empresa se aproveita e se instala em grande parte das terras. Também o INCRA é acionado diversas vezes, sem resposta suficiente. Apesar da relativa vitória da comunidade de Riacho Grande, a Camaragibe põe-se em funcionamento, o que não impede que os posseiros continuem a soltar seus animais e produzir nas áreas. Nesse período, as famílias posseiras tiveram suas terras invadidas, ficando escasso o espaço para a atividade principal, que é a criação de animais no sistema extensivo – solto na caatinga. A comunidade resiste a todas as violências, no que serve de exemplo para toda a região.

Com o “escândalo da mandioca”, a empresa deixa o local e uma dívida milionária junto ao Banco do Brasil. Os posseiros recuperam o uso de toda a área – a Areia Grande. Nela, atualmente, eles têm 3 mil caixas para criação de abelha, o que gera 30 mil litros de mel por ano e 13 mil cabeças de caprinos e ovinos.
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O caso atual – Após 20 anos de aparente tranqüilidade, em março de 2008, efetivos da Polícia Militar, da Polícia Civil, da Polícia da Caatinga e um policial que se diz da Polícia Federal de Pernambuco, sob supervisão de um Oficial de Justiça, com truculência e abuso de autoridade, entram na área para expulsar os posseiros. Casas, chiqueiros, currais, roçados, cercas e até um centenário juazeiro são destruídos. Exigem a retirada das colméias e do criatório.

No inicio de 2008, o juiz de Casa Nova conferiu aos empresários da região a “propriedade” das terras de fundo de pasto que foram “compradas”, no final da década de 1970 pela empresa Camaragibe. A propriedade grilada pela Camaragibe foi ilegalmente transferida aos empresários, que ingressaram com uma ação de Imissão de Posse visando legitimar, através de decisão judicial, os falsos títulos adquiridos. Policiais e prepostos de supostos empresários interessados na área destruíram casas, chiqueiros, currais e roçados das famílias. A saída da policia da área não desanimou os prepostos de dois empresários, que se intitulam como “novos donos” da localidade. Guarnecidos por milícia armada, realizam a “faxina” da área, tentando apagar vestígios da posse e moradia.

Os moradores acampam no local para impedir a continuidade da destruição de suas benfeitorias. Nove capangas encapuzados, portando armas de grosso calibre, invadem o acampamento com tiros, ameaças de morte, agressões físicas a mulheres e crianças, usando-as como escudo. Chega um destacamento policial, que não reprime os jagunços.

Luto e vitórias – Em novembro de 2008, o Estado reconhece tanto a natureza pública das terras, quanto a legitimidade de sua ocupação tradicional, e inicia ação discriminatória administrativa das posses.

No dia 4 de fevereiro de 2009, é encontrado o corpo de um dos líderes dos posseiros, Zé de Antero, que nunca deixou a área, onde nela foi brutalmente assassinado. As comunidades não desanimam.

No dia 1º de julho de 2009, mais uma vitória com a anulação da sentença, pelo Tribunal de Justiça, da Imissão de Posse que ratificava o processo de grilagem de terras públicas.

Atualmente, sob vigilância constante, as comunidades vivem na Areia Grande. Continuam lutando pela discriminatória judicial e anulação definitiva dos títulos fraudulentos, regularização do território, recuperação das perdas materiais, investigação e punição dos culpados pela morte de Zé de Antero. Vivem repetindo o que Zé gostava de dizer: “Essa luta não para enquanto a justiça não triunfar”.


Organização social e luta pela água

março 17, 2010

Acesso à Água
Vale do Salitre – Juazeiro – Bahia

Até a década de 1970 o rio Salitre corria o ano todo. Os agricultores do Salitre abasteciam a cidade de Juazeiro com verduras, legumes e frutas, plantados com pequena irrigação, muitas vezes totalmente artesanal, numa faixa a mais de 100 metros da margem do rio Salitre, respeitando a mata ciliar. O Vale do Salitre sempre se destacou pela fertilidade de seu solo.

Na década de 1980 chegaram os grandes produtores, inclusive japoneses, sobretudo no médio e alto salitre, apossaram-se das terras e implantaram grandes plantações irrigadas de melão, cebola e tomate, usando motores potentes que sugavam toda a água, interrompendo o fluxo do rio. Essa prática tornou o Salitre um rio intermitente e desestruturou toda a vida dos salitreiros tradicionais. Por outro lado, o tipo de agricultura especulativa contaminou a forma tradicional de cultura e os próprios salitreiros investiram na monocultura, acabando de vez com a forma tradicional de cultura e desmatando as margens do rio, favorecendo o assoreamento e a poluição com uso cada vez mais intensivo de agrotóxicos e adubos químicos.

O baixo e médio Salitre foram as áreas mais afetadas pela falta de água. A reação iniciou-se a partir das Comunidades Eclesiais de Base, as CEBs, que abordavam os problemas das comunidades locais. Na década de 1980 as discussões focaram o associativismo como instrumento de organização, superação dos problemas e busca de melhores condições de vida. A Associação Comunitária dos Lavradores do Recanto Santa Terezinha e Bebida (ASCLAREC) foi pioneira nesta busca. Fundada em 19 de fevereiro de 1987 tem como um de seus objetivos assegurar o abastecimento de água para a população e contribuir na busca de melhoria da qualidade de vida das famílias agricultoras. A iniciativa de fundar a ASCLAREC surgiu dos moradores da comunidade de Recanto, mas a Associação congrega, também, comunidades vizinhas. Entre as lideranças que iniciaram o trabalho destacam-se Leonice Rocha da Silva, Nival Gomes da Silva, Renilde, Bernardete, Jardilina, Edgar Ferreira e José Ribeiro, que prestaram assessoria, pois já faziam parte de outras associações

Uma das iniciativas da ASCLAREC foi a implantação da roça comunitária onde os associados podem ter seus plantios e também criar animais de pequeno porte. É uma das poucas áreas do Salitre onde ainda existe mata ciliar. Ali também se iniciou a experiência de cultivo de hortaliças em canteiros econômicos com água armazenada na cisterna de produção. A terra para a roça comunitária foi cedida por duas famílias das comunidades e que participam da Associação

A partir da ASCLAREC outras associações foram surgindo e, no final da década de 1990, foi formada a União das Associações do Vale do Salitre, a UAVS. As associações foram criando uma tradição de organização e luta que até hoje persiste, apesar de todos os problemas enfrentados. Isso é um ganho social significativo da população.

Com o fortalecimento da organização, partiu-se para uma luta mais ampla pela água. A solução encontrada foi a construção de barragens sucessivas que, através de bombeamento, levam água do rio São Francisco até o médio Salitre. Inverteu-se a natureza. O Salitre deixou de ser afluente do São Francisco e passou a importar água do mesmo.
 
Essa forma de garantir água para a produção tem causado, por um lado, abastecimento para que os agricultores continuem sua produção, por outro, a salinização mais acentuada da água e da terra.

Mesmo assim, a grande maioria dos agricultores do Salitre só planta no período das chuvas, pois os gastos para poderem usar a água das barragens sucessivas estão muito além das possibilidades econômicas. Aí, a necessidade de se buscar alternativas. Entre as quais está a intensificação da criação de caprinos e o uso racionalizado da água em plantios de subsistência nos períodos chuvosos ou com água acumulada nas cisternas de produção.

A água das barragens sucessivas serve para produção. Permanecia o impasse para a água de consumo humano. A água das barragens, com uma alta concentração de sal, não podia tornar-se potável. Mais uma vez, a ASCLAREC foi à luta e, em parceria com a Diocese de Juazeiro, como Unidade Executora Local, está implantando, ao longo do Vale do Salitre, o Programa Um Milhão de Cisternas, o P1MC, para o abastecimento humano. Já as cisternas de produção são voltadas para garantir segurança alimentar para as famílias mais prejudicadas com a intermitência do Rio Salitre. A agricultura orgânica na roça comunitária – com o apoio do técnico Anderson Fabiano Rocha da Silva – está se estendendo para a produção de verduras com água das cisternas de produção.

Além da luta pela água a ASCLAREC, em parceria com diversos órgãos, participa:
– nos procedimentos de manutenção (limpeza) do rio Salitre;
– na construção de sanitários;
– na melhoria habitacional – com fundo solidário;
– na organização de cursos de capacitação;
– nas gestões para melhorar a educação e a saúde – André Azevedo Rocha (estudante de pedagogia) e Minéia Clara dos Santos (Agente de saúde) mobilizam os moradores para esta busca;
– na administração do uso da água do rio Salitre no trecho das barragens sucessivas;
– no Comitê da Bacia do Rio Salitre.


Agricultores retomam suas terras

março 17, 2010

Acesso à Terra
Acampamento Nossa Terra – Ponto Novo – Bahia

O Acampamento Terra Nossa está localizado no município de Ponto Novo – Bahia. Mais precisamente às margens da BR 407, sentido Capim Grosso/Senhor do Bonfim/Juazeiro. Ocupa uma área de terra dentro do perímetro irrigado com 60 famílias.

No ano de 1998, foi construída uma barragem no rio Itapicuru com posterior implantação de um projeto de irrigação. As terras antes pertenciam aos pequenos agricultores, hoje “pertencem” aos empresários que exploram a mão-de-obra no município. Foi um projeto que acabou com o sossego e a vida digna dos camponeses que tinham sua propriedade e na terra de tudo um pouco produziam para se alimentarem, praticando a agricultura de subsistência, orgânica e diversificada. Desde então, os agricultores ou camponeses que tiveram suas terras inundadas permaneceram na expectativa de receberem lotes irrigados.

Nesta região, a construção de barragens é precedida da limpeza da área, isto é, da remoção, através de propaganda enganosa e de promessas de terras e de irrigação, de toda a população que será atingida. Isso aconteceu também em Ponto Novo. Só que as promessas feitas de assentamento não se concretizaram, e as terras foram loteadas com empresários que ali implantaram projetos de irrigação com a finalidade de produzirem para o mercado, sem se preocuparem com o alimento básico das famílias.

Em 11 de junho de 2008, a indignação dos camponeses que haviam perdido suas terras chegou no limite e, articulados com outros camponeses da região e com os movimentos sociais (MPA, CPT, CETA) , retomaram suas terras. São 60 famílias acampadas e todas almejam produzir ecologicamente e permanecer criando seus filhos, tendo educação contextualizada, de qualidade e pública, infraestrutura e tudo que uma família merece para gozar de uma vida simples, mas digna.

Produção de hortaliças para consumo das famílias e venda na feira

É um acampamento de resistência dos camponeses para permanecerem na terra e nela produzirem de tudo um pouco. Além da horticultura, cultivam feijão, milho, mandioca, melancia, abóbora, batata doce, dentre outros. As famílias acampadas estão buscando alternativas de convivência e sustentabilidade com a caatinga que ainda resta na região. Inclusive desenvolvendo projeto de horta comunitária agroecológica pelo Fundo Nacional de Solidariedade (FNS), da CNBB, e ampliando a área agrícola nas terras ocupadas para a safra de inverno.

A produção interna das unidades familiares gera nas pessoas uma autoestima e identidade camponesa perdida ao longo do tempo. Representa também economia de recursos, alimentação diversificada, saudável e geração de excedente, que por muitas vezes é vendido na feira da cidade. O fortalecimento das relações de gênero, cooperação e solidariedade, têm grande importância para as famílias acampadas.

As famílias que reocuparam suas terras priorizam a afirmação da identidade camponesa, o fortalecimento da comunidade, a diversidade produtiva, o respeito pelo meio ambiente, a solidariedade entre campo e cidade, com o objetivo de produzir comida saudável para as famílias acampadas e para as famílias pobres da cidade, devolver a própria dignidade através do direito de ter terra para trabalhar e viver de forma sustentável no âmbito econômico, ecológico, social e cultural.

O acampamento tem hoje 60 famílias e desenvolve atividades coletivas e individuais que envolvem a participação de jovens, mulheres e homens, na produção e  na construção de suas moradias.

Casas de adobe preservam o meio ambiente

As moradias, dentro do acampamento, estão sendo levantadas em adobe – madeira e barro – preservando a maneira secular de construção no sertão.
As ameaças de expulsão são constantes. Os afortunados pelas políticas governamentais não querem ceder um filão de terra produtiva para os acampados que, simplesmente, retomaram suas terras perdidas quando da construção da barragem e, como agricultores familiares, produzem o alimento que vai para a mesa do brasileiro.

O direito à terra é o movente principal desta luta. Junto vem a preservação do modo campesino de viver, da cultura ancestral, da diversidade própria da agricultura familiar, do respeito pelo meio ambiente no modo de viver e de produzir, da solidariedade entre as famílias e destas com a cidade.


Fundo Rotativo Solidário melhora a renda familiar – A experiência do grupo de beneficiamento de frutas

fevereiro 23, 2010

Economia popular solidária
Comunidade Jenipapo – Jaguarí – Bahia

A 15 km de Jaguarari (BA) está localizada a comunidade de Jenipapo, onde moram 55 famílias de pequenos agricultores e agricultoras que plantam milho, feijão e mandioca, e criam algumas cabeças de gado. Plantam também muitas fruteiras de onde colhem manga, goiaba, maracujá do mato, jenipapo, acerola, banana, jaca, cajá e umbu.

A água de que dispõem para consumo humano, animal e produção, vem de uma pequena barragem que fica no pé da serra, mas agora serão beneficiados com água encanada para o consumo humano. A água virá de poços artesianos dentro do programa governamental Água para Todos. Para os animais e para os plantios continuam usando apenas a água da barragem. Receberam também o Programa Luz para Todos, do governo federal, e em 2003 fundaram a Associação de Pequenos Produtores Rurais de Jenipapo.

Todos os anos essas famílias viam metade de sua produção de frutas apodrecer debaixo das plantas e a outra metade era vendida para atravessadores que compravam pelo preço que bem queriam.

Em 2006, resolveram dar outro rumo para a produção. Um grupo interessado conseguiu a aprovação de um projeto cujos recursos são geridos coletivamente pelo Fundo Rotativo Solidário, que já existia na região. Além de Jenipapo, o Fundo apoiou as comunidades de Borda da Mata, incentivando o artesanato e a produção de mel, e Gameleira, no beneficiamento de frutas.

O projeto para o beneficiamento de frutas foi aprovado pelo Comitê Gestor Nacional de Apoio a Experiências Solidárias, composto pelo Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), Banco do Nordeste do Brasil (BNB), Cáritas, Pastoral da Criança e ASA Paraíba.

Para a elaboração do projeto, o grupo de Jenipapo contou com o apoio de organizações e movimentos sociais: Comissão Pastoral da Terra, da Diocese de Bonfim; Pólo dos Sindicatos de Trabalhadores Rurais de Bonfim; CETA; Movimento de Pequenos Agricultores (MPA) e Associação de Fundo de Pasto.

O projeto de beneficiamento de fruta foi o incentivo necessário para a comunidade de Jenipapo implantar a unidade de produção de polpa de frutas. O grupo que participa do projeto é formado por 12 pessoas – 6 homens e 6 mulheres. Com o financiamento, o grupo conseguiu adequar a casa de um dos integrantes para o beneficiamento, comprar a despolpadeira, 4 frizeres, 1 máquina para lacrar as embalagens e outros instrumentos necessários para o desenvolvimento do trabalho.

Os produtores e produtoras beneficiam goiaba, manga, jenipapo, maracujá do mato e acerola. Essas frutas são cultivadas naturalmente, sem o uso de adubos químicos ou defensivos tóxicos. Compram as frutas das famílias que moram na comunidade e também de outras famílias de fora, quando necessitam.

A sobra da produção, sobretudo das frutas que não são beneficiadas, as famílias não vendem mais para atravessadores, mas levam para feira da cidade e vendem diretamente para os consumidores.

A produção de polpa é comercializada com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e usada na merenda escolar durante 10 meses do ano. É vendida também para hotéis em Jaguarari, além do consumo na própria comunidade.
 
O grupo tem um coordenador que convoca os participantes sempre que necessário para tomarem decisões relacionadas a oferta de frutas, produção e demanda por polpa – dependendo das negociações com a CONAB e com hotéis de Jaguarari.

Os participantes do grupo organizam a produção dependendo da quantidade a ser beneficiada. Podem todos trabalhar conjuntamente ou no revezamento organizado, onde cada um trabalha as horas estabelecidas. Após cada venda de polpa, descontam-se todos os gastos na produção, como luz, água e embalagens, e o lucro é dividido igualmente entre todos. Com isso, estão concretizando o objetivo inicial: melhorar o rendimento familiar.

As decisões de trabalho e também econômicas são tomadas em reuniões. Também vão iniciar a devolução dos recursos acordados para o Fundo Rotativo Solidário dos Movimentos Sociais da Região de Senhor do Bonfim. O valor devolvido será investido em outras comunidades.

A participação das mulheres é outro ponto de destaque no grupo. Elas estão  sempre presentes nas reuniões, ajudando a tomar as decisões. Outros avanços são identificados pelos agricultores e agricultoras, como a melhoria na renda das famílias; o fato de não precisarem mais dos atravessadores; a melhoria no cardápio das escolas e também das famílias, com os sucos naturais; mais famílias querendo entrar no grupo e maior responsabilidade dos participantes.

Eles também identificam algumas limitações, que pretendem, aos poucos, resolver, como equipamentos insuficientes e inadequados para todas as frutas; um único produto, que é a polpa, quando há possibilidade de expandir para outros; e interesses diferentes entre os integrantes do grupo. Uma parte busca o crescimento do grupo voltado para a economia solidária, e outros têm apenas interesse econômico.

Para o futuro, o grupo quer expandir a produção para outras frutas: cajá, jaca, umbu e banana, mas ainda não dispõem de toda a infraestrutura para isso. Mas estão confiantes de que conseguirão, em breve, beneficiar todas as frutas produzidas pela comunidade, seja fazendo polpa ou doces.

O grupo que beneficia frutas em Jenipapo é composto por: Manoel (Mário) da Silva (coordenador do grupo), Maia Crispina Lima Silva, Antônio Rodrigues da Silva (que cedeu a casa onde é feito o beneficiamento), Vanuza Alves da Silva, Domingos Martins dos Santos, Luciene Leite da Silva, José Ramos Dias, Mariza dos Santos Dias, Misael Alves dos Santos, Lúcia da Silva Santos, Edivaldo Quintino da Silva e Efigênia Maria da Silva Santos.


COOPERCUC – Cooperativa é referência internacional

fevereiro 23, 2010

Economia popular solidária
Canudos, Uauá e Curaçá – BA

Cooperativa tem 141 associados, entre homens e mulheres

A Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (Coopercuc) foi constituída em junho de 2004 por um grupo de 44 mulheres agricultoras rurais unidas no sertão baiano. Tem sua bases nos movimentos sociais, Comunidades Eclesiais de Base, mutirões, missões, catequese, organizações comunitárias, associações, partido dos trabalhadores, lutas sindicais.

Desde 1986, um grupo de 20 mulheres começou a se reunir e, mesmo de forma artesanal, utilizava o umbu na preparação de alguns produtos. Quatro anos depois, criou-se a Fundação Grupos Unidos do Sertão, com a participação de 30 comunidades (mais de 100 pessoas).  Estes produtos eram comercializados em feiras, sendo colocada a primeira barraca na feira de Uauá, com 1000 kg de produtos processados. Surgia a cada dia a necessidade de melhorar a oferta e qualidade dos produtos.

Com a perspectiva de melhorar a organização da produção, o grupo deu passos para a fundação da COOPERCUC, constituída em abril de 2003 e legalizada em 28 junho de 2004, localizada em Uauá. Logo em 2005 foram instaladas 10 minifábricas no interior destes municípios.

A partir de 2006, deu-se início o processo de certificação orgânica. Em 2007, criou-se o Selo Certificação Orgânica Nacional. A primeira venda foi para a CONAB e a primeira experiência de exportação com a França.

Com um atual quadro social de 141 cooperado/as, a Coopercuc tem a missão de contribuir para o fortalecimento da agricultura familiar visando a produção ecologicamente correta, economicamente viável, socialmente justa e solidária, contribuindo com a melhoria das condições de vida sustentável das comunidades rurais nos municípios de Canudos, Uauá e Curaçá, localizados no território do Sertão do São Francisco, região semiárida.

Ao longo de 5 anos  vem desenvolvendo a autoadministração e gestão cooperativista em torno da organização, beneficiamento e comercialização dos produtos da agricultura familiar, em especial dos produtos oriundos do extrativismo das plantas nativas do bioma caatinga, a exemplo do umbu e do  maracujá nativo, na transformação em doces, geleia, polpas, sucos, compotas, vinagre e outros, com grande aceitação nos mercados nacional e internacional. A Coopercuc realiza seu trabalho respeitando quatro eixos: social, ambiental, cultural e econômico.

Atualmente trabalha com seis tipos de frutas: umbu (fruta mais utilizada), maracujá da caatinga, maracujá amarelo, manga, goiaba e banana. Está configurada em forma de uma rede, onde congregam 16 associações rurais com 16 mini-unidades de processamento de frutas e ambas as partes desenvolvem as políticas de desenvolvimento local sustentáveis das comunidades rurais de fundo de pasto, com um público alvo de 300 famílias. Hoje são 200 toneladas de frutas processadas com o certificado de orgânico e comercializadas.

Em 2009, 50% da produção foi vendida pra o governo federal, através do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), operacionalizado pela Companhia Nacional do Abastecimento (CONAB); 25% ao mercado internacional (França, Áustria e Itália); e 25% ao mercado nacional.  Hoje, a Cooperativa tem certificação extrativista, orgânica e Fair Trade. Cerca de 250 famílias são beneficiadas pelo trabalho, gerando uma melhoria na renda em torno de 30%.

A experiência da Coopercuc demonstra que a economia solidária acontece pautando um jeito diferente de produzir, vender, comprar, sem explorar, sem destruir o meio ambiente. Baseada na organização, cooperação, autogestão, solidariedade, promoção da dignidade e valorização do trabalho humano.

O trabalho da Coopercuc é referência regional, nacional e internacional, no entanto é preciso superar alguns desafios, entre os quais é fundamental ampliar os canais de comercialização e fortalecer a gestão da Cooperativa.


Escola Rural de Massaroca: uma prática educativa contextualizada no sertão baiano

fevereiro 2, 2010

Educação contextualizada
Massaroca – Juazeiro – BA

Há quatorze anos, produtores da região de Massaroca, distrito de Juazeiro, em pleno sertão baiano, tiveram a ousadia de investir numa escola que de fato trouxesse para os seus filhos o aprendizado a partir de sua realidade local. Para isso, e com apoio de produtores franceses, buscaram parcerias para que o sonho se tornasse real. Com essa intenção, surge  a ERUM – Escola Rural de Massaroca, em 1995.
 
Luiz de Senna, pedagogo brasileiro radicado na França,  grande colaborador da ERUM nos primeiros anos, dizia que o compromisso da Escola era trabalhar para os interesses de uma comunidade camponesa. A comunidade de Massaroca vem se organizando há  anos para sair de uma situação de carência e de ameaça de miséria, assim como se livrar do abandono em que foi deixada há muitas dezenas de anos.
 
A metodologia adotada pela Escola considera três momentos no processo educativo: observar a realidade, compreender a realidade e transformar a realidade. Dessa forma, a ERUM vem contribuindo para o desenvolvimento local das comunidades da região. Estudos de realidade são feitos anualmente, com os alunos do Fundamental I e II. Cada ano escolhe-se uma comunidade, para que os conteúdos da grade curricular sejam iniciados com base na realidade local.
 
A partir dos estudos de realidade, muitos projetos foram introduzidos, contribuindo, assim, com a qualidade de vida do povo da região. Projetos ligados a organização da juventude, saúde da mulher, organização comunitária, criação de galinhas, horta comunitária, manejo do rebanho, manejo da caatinga e muitos outros, hoje com grandes possibilidades de implementação de uma cooperativa de beneficiamento de produtos locais, tendo como ponto forte o umbu.
 
Ao longo desses anos, a trama sempre era montada em busca de benefícios diversos, tanto que a própria escolha do local de construção da escola foi ponto preponderante para atrair diversos benefícios para as comunidades, como a energia elétrica, água encanada, beneficiamento dos acessos comunitários, serviços ligados ao transporte estudantil, empregos no município, além de uma maior atenção por parte das instituições dos governos estadual e municipal no que diz respeito a capacitações e cursos de formações.
 
Uma grande preocupação da ERUM sempre foi trabalhar a questão do êxodo rural e formação de lideranças, discutindo possibilidades e potencialidades da região. Essas reflexões possibilitam um novo olhar sobre a área rural e, ao mesmo tempo, mostram a importância da implementação de novas tecnologias para o desenvolvimento local.

A ERUM sempre valorizou a cultura local e, por isso, introduz novos elementos, como as manifestações culturais, a exemplo do São Gonçalo, Corrida de Argolinha, Reizado, Dança da Jiboia, Espera de Jegue, entre outras, que são tratadas como conteúdos e conhecimentos atrelados aos blocos temáticos trabalhados no cotidiano da Escola e vivenciados nas comunidades. Da mesma forma trabalha modalidades desportivas universais, tanto é que o Atletismo e o Handebol são bem absorvidos pelos alunos e são referências para o município, devido às participações exitosas da ERUM em eventos esportivos oficiais em âmbito local e estadual.
 
A partir das modificações que surgem no território, aos poucos, os pais e alunos vão compreendendo o processo de modernização social e de mercado. Para a ex-aluna Marília Cíntia, da comunidade de Canoa, ao discutir essas modificações no seu lugar, diz que o meio social nem liberta e nem escraviza, as pessoas é que têm que se adaptar ao novo. Já Cosme Neres e Eduardo Nunes, também hoje ex-alunos, dizem que o mundo que eles veem é como ¬uma estrada, e nesta estrada tem vários caminhos, e cada pessoa tem o dever de escolher o caminho que vai seguir.
 
Para o professor e fundador da Escola, Antônio Martins, a experiência da ERUM é algo inusitado. Ele afirma que passou a compreender e a respeitar os sujeitos do processo educacional, com seus jeitos e modos, sem impor um conhecimento adquirido na Academia, mas aliado aos conhecimentos científico, filosófico e popular, no sentido de construir ou fazer emergir saberes.
 
Atrelado a isso, fica visível, quando Cosme, da comunidade de Caldeirão do Tibério, ex-aluno, diz que dentro da Escola os alunos vão perdendo a vergonha de falar e aprendem os conhecimentos de como viver melhor na terra em que nasceram. Isaias, da comunidade de Curral/Novo Jacaré, também ex-aluno, complementa que na ERUM aprendeu a arrumar outras maneiras de agir diante dos problemas
 
A professora da Educação de Jovens e Adultos (EJA),  Waldete Pereira do Nascimento,  ex-aluna da primeira turma, hoje parceira da ERUM, diz que o tempo que passou na ERUM foi como ter vivido a metade de sua vida, pois através da escola conseguiu se desenvolver, ficou a par de muita coisa real, um exemplo é a questão da chuva, que sempre pensou ser Deus quem a mandava.

Nesse mesmo sentido,  Isaias Flávio da Silva, aluno da primeira turma, em 1998, diz que as pessoas do lugar sempre tiveram muita fé em Deus e acreditavam que Deus iria melhorar a situação de seca no Sertão nordestino. Mas, ele acreditava que o que era preciso era  organização para enfrentar este problema, fazendo muitas aguadas. O que   precisavam era aprender a conviver com a seca e não trabalhar para acabar com ela, porque todo ano a seca acontece e que não é novidade para a região do Semiárido.
 
Para o ex-professor e fundador da ERUM, Edmerson dos Santos Reis, hoje professor da Universidade Estadual da Bahia (UNEB/Juazeiro), doutorando em Educação, diz que a ERUM foi, e continua sendo, uma grande escola de formação. As vivências, as trocas, as  aprendizagens, os embates, as perdas, os ganhos, as mais fraternas relações foram significativas, tanto nos momentos em que por lá esteve como aprendiz e professor, quanto como pessoa, afirmando que ali de fato viveu uma experiência educativa.